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REINADO OU REIZADO NA ILHA DO FOGO criar PDF versão para impressão enviar por e-mail
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Escrito por Humberto Lima   
06-Jan-2008

Considerada uma das festas mais antigas da ilha do Fogo, o Reinado ou Raizado está ligado à igreja católica. A imagem do santo utilizada pelo reinado é cedida pela igreja depois das actividades devolvem-na.

“Reisado” é denominação erudita para os grupos que cantam e dançam na véspera e dia de Reis 6 de Janeiro). Em Portugal diz-se reisada e reiseiros, havidos no Norte, Famalicão, Maia, Mondim-de-Bastos, Ponte-de-Lima e Vila-de-Conde Luís Chaves, Páginas Folclóricas, 144, Porto, 1942), que tanto pode ser o cortejo de pedintes cantando versos religiosos ou humorísticos, como os autos sacros, com motivos sagrados da história de Cristo, no exemplo citado por Alberto Pimentel de uma representação de Herodes e o Nascimento do Menino em Friâes em Santo Tirso (As Alegres Canções do Norte, 269, Lisboa, 1905)(...).No Brasil a denominação, sem especificação maior, refere-se sempre aos ranchos, ternos, grupos que festejam o Natal e Reis. O reisado pode ser apenas a cantoria como também possuir enredo ou série de pequeninos actos encadeados ou não”[1].

O grupo de Reinado é formado por 3 a 5 pessoas, cujo objectivo é realizar terços em casas previamente solicitadas, ou então num local onde costumam realizá-lo. Antigamente o grupo era constituído por 7 pessoas.  

Hierarquicamente é composto por um Rei, que controla tudo, um interino, tesoureiro e participantes. O primeiro objectivo desses grupos era a evangelização, em que pessoas escolhidas pelo padre eram os evangelizadores. Essas pessoas que como requisitos principais tinham de ser casadas, crismadas, e confessadas, "saíam para o mundo fora", pedindo esmolas para a construção de igrejas, como nos informa Nhô Tchina Reinadu. Segundo este mesmo informante, “o primeiro chefe de grupo de Reinado na ilha do Fogo, foi o conhecido Ntoni di Barba, di Galinheru”, que arrancou com o seu grupo da Vila, passaram por Patim, aproximaram de Monte Grande e foram até S. Filipe.

O som agudo, característico do tamborzinho indica a localização da casa onde preparam o terço. O início da cerimónia é indicado também pelo sino ou pela campainha. O Reinado sai às ruas no dia de Reis, com um itinerário próprio, repete a mesma trajectória duas vezes. A sua actuação depende da Quaresma, período que começa geralmente uma semana depois do Carnaval e termina quarenta dias depois, no último Domingo de Páscoa. Isto significa que o Reinado circula dentro do período da Quaresma.

É uma tradição bem aceite na ilha devido à sua característica tradicional, em que não há bailes nem  algazarras, mas sim um ambiente de extrema responsabilidade em que o principal objectivo é a "réza" aos mortos, manter a paz em casa, e o seguimento da moral católica. O filho de um mordomo, por mais que estude, não deixa de seguir a mensagem do Reinado, tentando preservar a memória dos defuntos, e "manter sempre as suas almas na glória".

Os católicos que geralmente recebem o reinado, têm grande respeito para com as suas actividades.

       Forma de actuação do Reinado 

A actuação nocturna do Reinado é designada por "pega burinho" ou "pega buru".

O Terço ou "dalainha", ladainha, é realizado durante o dia. Tradicionalmente, o Reinado pernoita em todas as casas onde realiza as suas actividades. Assim existe um programa de actividades com intervalos mais ou menos longos, que ocupa o tempo das pessoas que participam, fazendo com que as pessoas que vêm de longe não percam toda a actuação. Na mesma localidade podem realizar o reinado em várias casas.

A mesa é ornamentada com toalhas ou colchas bonitas, com a preferência para as cores vermelha e branca. As pontas são presas à parede com pregos de aço, e à mesa com pioneses. O santo é envolvido num lençol, ficando de fora somente o rosto. Outros elementos que podem figurar na mesa são a campainha de reinado e o rosário. O tambor utilizado no início fica embaixo da mesa. A mesa só é desfeita cinco dias após a ida do reinado para outros lugares.

A cerimónia de "benzedura na pega buru", é um dos aspectos mais importantes da actuação do reinado. Todos os participantes devem ajoelhar-se junto ao santo fazendo o sinal da cruz; muitos aproveitam a ocasião para fazer um pedido ao santo.

No "pega buru", (a cerimónia que se realiza à noite), servem jantar para todos os participantes; caso o mordomo não possua condições para o jantar oferece um café no fim do terço.

O preço do terço varia de acordo com o custo de vida. Em 1985, custava doze escudos, 1986, quatorze escudos e em 1991, vinte escudos. Cada reinado tem o seu preço, embora haja sempre uma concertação entre o grupo e o mordomo.

Nalgumas circunstâncias, um grupo de reinado pode deixar de exercer as suas funções em determinadas casas, devido a maus-tratos por parte dos mordomos. Perante tal situação, estes são obrigados a convidar outro grupo.

Utilizam a designação "pega buru" para desviar a atenção das crianças. Dizem-lhes que fugiu um burro e que devem ir à procura dele; assim mantêm-nas afastadas do local do terço.O tempo de duração do terço é longo, assim, a pessoa que dirige é constantemente substituída para descansar a garganta; mas essa troca só deve ser feita no momento adequado, por exemplo quando termina um Pai Nosso ou uma Ave Maria.

O mordomo não arreda o pé da sala enquanto o reinado não terminar as actividades, para que não se "roube" o terço, ou seja, para que não falhe nenhuma oração dentro de cada terço.

Os mais antigos relatam que, certa vez, um grupo de reinado desapareceu quando tentou transpor a Cova Figueira de uma vez, dando volta inteira à ilha, passando pela Baleia (zona limite entre Mosteiros e Cova Figueira). Esta é a razão porque hoje o reinado não dá a volta à ilha, passando pela Baleia. Assim, para não transpor a localidade da Baleia, é obrigado a dar duas voltas para terminar o itinerário do reinado, ou seja, vão até Baleia e voltam atrás, depois retomam o caminho rumo a essa localidade, só que em sentido contrário. O reinado pode sair de São Lourenço e vai até Relva-Mosteiros regressando depois para  em direcção ao sul até chegar a Cova Figueira.

Como referimos, o Reinado assume compromissos com várias casas de família, e nunca falta ao prometido, mesmo que morra um antigo membro do grupo, ele é automaticamente substituído por um mais jovem. É que devido à fé em Deus, contra o Demónio, confiam no poder da oração e do bom senso. Também o Reinado procura nunca entrar em conflito com os mordomos (donos das casas).

A origem religiosa é flagrante em cada um dos componentes do reinado; as letras da música "Boas Festas" e a cada uma das orações do terço têm referências da língua italiana.

Geralmente as coisas que dizem no reinado não são muito perceptíveis, à excepção da conhecida oração. A pessoa que reza tenta sempre fazê-lo com uma voz firme e grossa.

No fim do terço ou se pedirem a repetição do terço, o reinado realiza um canto tradicional conhecido por "Boas Festas", que é a parte mais agradável do terço. Terminado o canto, todos os participantes colocam uma oferta em dinheiro na mesa. O tesoureiro do grupo recolhe a oferta, e também o pagamento pela actuação. Às vezes recebem o pagamento em géneros com milho, feijão, etc.  

Vejamos a transcrição da música de Boas Festas de Reinado.     

Biba, biba,    

Oji e dia primeru     

Dia du anu novu    

O, oji e dia do Natal              

 

 

Mininu di Deus ki nase             

El nase na lapa di Belém             

Na primera poza di galu             

Nun lugar orientimenti     

 

 

Kordai Juze, kordai Maria    

Sta na ora di konsagradu    

Sagradu e agu, korpu sangui di Jesus Kristu    

Kamin di seu ki nunka falha, strela eradu.  

 

 

Sinhor San Pedru             

Nho k'e xaveru di Paraizu,             

Nho abri-nu es porta              

Purki nos tudu du ten fe di ser sarvadu      

 

Pamo kuandu Kristu kre neseba    

Biba, biba    

Tudu mundu dja klariseba              

 

Asin tanbe, kuandu k'el ben more             

El ta dixa un livru di testamentu             

Pa nos irmãu ba pa igreja             

Pa nu konfesa na padri o na Bispu             

K'e un pesoa rizelvadu.      

 

Nosa Sinhora    

Nha prista-nu es vosu manta pa du kubri es artar      

Artar di Deus    

K'e divina di poderozu.                  

 

Poderozu e kel ki guverna seus a tera             

Di baxu di forsa di fortaleza              

Tanbe la sima ke kaminhu ki kristu andaba     

 

Kristu, kuandu k'el andaba na rua di margura     

Kada pasu, kada legua k'el da    

El lindu el dja    

El dirama un pingu di sangi              

 

O Jorji kavaleru              

Jorji, pundi bu sta ba                  

 

N sta ba kudi xamada di omi ki manda txuma-m    

A li es tres skudu    

Bota-l un dianti, un tras, un na metade     

Ki tudu es orason ki du sta faze nas boa-festa    

Ki pa N ba kontra ku Maria di Madalena 

Pa prugunta-l pa Anju du Rei da Glória          

 

Nosa Sinhora             

Nha fika-nu nesta kaza             

Kon paz, gozu y alegria             

Ki tudu kore na medida du diseja     

 

 

E nomi du pai      

Y du spritu     

Y du Santu     

Amen!  



[1] Luís da Câmara Cascudo / Dicionário do Folclore Brasileiro   pag. 669

Comentarios (6)Add Comment
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escrito por jose Ribeiro de Pina, Janeiro 15, 2008
Muito bem! Boa recolha. Ja aprendi mais alguma coisa sobre este assunto.
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escrito por kaka, Fevereiro 18, 2008
Excelente trabalho. So uma correccao: nao e "pega buru" que se diz, mas sim "pega burru".
...
escrito por kaka, Fevereiro 18, 2008
O trabalho e excelente e necessario. Mas escrever expressoes Foguenses usando apenas um "r" quando e necessario dois, constitui uma violencia. Neste caso a proposta do ALUPEC esta reprovado.
Reinado
escrito por Jose Mendes, Março 01, 2008
E um bom caminho.Continua na pesquisa e levantamento da nossa tradicao. Pensaria que o grupo reinado tivesse extinguido. Lendo esta descricao transportei a minha infancia. Era alegria para os miudos quando chegava a data do reinado. Lembro-me ainda daquele "binde" da mae que preprava aquele cuscuzinho quente que era servida com leite da cabra em oferta aos reinados. Lembro do falecido Vasquinho que era chefe da confraria do sr Tchina e Nelinho boca branco. Lembro-me daquela mascada que o Nelinho escondia no canto da boca e da cuspidela que caia pela boca quando rezava aquela ladainha. Ninguem importava com o masco do Nelinho. Era sabura do tempo. Quando a confraria chegava a nossa aldeia era o momento da nossa barrigada. Conheciamos todas as casas que iam celebrar o terco. Era cuscus "pra ali e pra cola". O Nelinho que deus haja era amigo de todos. Quando terminara o terco repicava o sino e o tamborzinho num desafio a conquista de coracoes afim de botar a mesa aqueles tostoes para ajuda a nossa senhora. Era so ver alegria no rosto dos Reinados quando havia boa oferta. Naquela altura nao havia maldade.Eramos amigos.



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escrito por Samora Lobo, Agosto 14, 2008
Tradições são bonitos mas práticas religiosas dessas não trás beneficios nenhumas... é preciso ter cuidado com essas práticas... sem ofença
...
escrito por jp, Julho 30, 2009
amigo! quem sabe "pega buru" pode ser da ilha de sao tiago


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