Participe e dê o seu contributo nos debates deste Fórum.
entrar
|
|
|
Escrito por Lucilio Alves
|
|
09-Fev-2010 |
Temos uma falsa idéia de Progresso, e achamos que tudo que é moderno é melhor, tudo que é novo vale mais, e tendemos a uma espécie de desprezo ao que é antigo, sendo esta a mentalidade positivista de 'Ordem e Progresso', marca do século XIX em diante.
A expectativa que temos do progresso é de que ele deveria estar a serviço do homem para conquistarmos estabilidade, paz de espírito, um mínimo de segurança e aquilo que sempre almejamos – o sentimento de liberdade e de respeito que todos merecem, não importando a crença, a cor ou a origem. O que mais se quer é o direito de ser respeitado na sua natureza e essência, não importa de que modo seja, ou que crença tenha desde que isso não coloque o outro em risco ou sacrifício – e é exatamente isso que se vê ameaçado.
Há coisas que não se medem pelo progresso; são valores eternos e isso se chama Ética, diferente de moral, pois esta se refere aos costumes. A Ética diz respeito a um estado de alma no qual o direito natural cósmico – parafraseando Sófocles, em sua já citada peça Antígona, escrita há 2.500 anos – de nascer, viver e morrer com dignidade e honra – deve permanecer intocável, e isso vale pra quem quer que seja.
Quando falamos da Natureza Humana, transcendemos as discussões filosóficas ou psicológicas; temos de abarcar o plano da existência, e esse plano não conhece progresso, pois é eterno.
Os Estados Modernos não são do homem para o homem; são Estados para a economia, a produção e o trabalho, na ilusão de que uma economia competente e eficiente tornará o homem feliz. Defrontamo-nos aqui com uma ingênua falácia; jamais a economia trouxe a felicidade. Claro que a miséria também não traz, não há dúvida, mas não é a riqueza que proporciona uma vida plena.
O que está acontecendo com a Natureza Humana? Ela está sendo agredida a tal ponto que não consegue mais o mínimo de realização e, quando retrocedemos no tempo, vemos que na história da Antiguidade houve uma época na qual a reflexão sobre o homem procurou desvendar essas questões, ou seja, estudou a natureza humana, tentou compreendê-la em sua essência e construir uma civilização em razão dela e não contra ela. Esse é o caminho que devemos recuperar.
O fato é que a condição humana foi esquecida, supondo-se que se aprendesse bem aquele sem-fim de disciplinas (o pretenso conhecimento racional), e caso se desse bem com computador de sua preferência, também a sua vida estaria resolvida. Mas não se resolveu nada. O enigma da existência continuou igual pra todos, e ainda não sabemos o que viemos fazer aqui e queremos fazer de conta que isso não é problema, afinal não nos perguntaram se queríamos nascer ou vir para este planeta.
O ócio, infelizmente, ganhou na Modernidade uma conotação de vagabundagem, de encher a cara ( beber, vida boa, curtição exagerada), de se largar, e, frequentemente, isso é verdade. Não que não possa fazer parte da vida esse tipo de alegria; o problema é que o homem moderno foi meramente educado para trabalhar como escravo. Com seu tempo livre ninguém lhe ensinou o que fazer – da mesma maneira age um cachorrinho quando permanece preso na coleira o dia inteiro e, depois de solto, fica ensandecido, correndo e quebrando tudo. O ser humano não é diferente e, se ele passa o dia no cabresto, quando se solta sai quebrando tudo, porque não sabe o que fazer com sua liberdade, com seu tempo livre.
A Escravidão Moderna é muito esperta; o nosso Estado conseguiu educar o homem de modo que ele fique feliz em ser escravo e se ache livre ao mesmo tempo. O consumismo é uma escravidão muito conveniente para o Estado, porque assim o homem não tem tempo para pensar no que é substancial, aprisionando-se no círculo vicioso de comprar mais e mais coisas (supérfluas na grande maioria), e trabalhar em dobro para pagar as contas e sobreviver. E assim ele não consegue pensar por conta própria, não conquista a liberdade criadora, pois, afinal de contas, está muito ocupado e, para se distrair, vê o telejornal da noite, novela das nove, (TCV ou TIVER). Ah, isso aumenta sua lucidez e melhora sua condição existencial de um modo extraordinário.
A Sociedade de Consumo, na realidade, é o melhor truque que o Estado moderno criou para escravizar o homem, em busca de ideais que chamamos de quiméricos. E por que são quiméricos? Porque nunca se alcançam, pois jamais estamos satisfeitos, pois é uma sociedade veloz.
O ser humano não sabe mais dar o basta e somente quando aprender nascerá à possibilidade de se tornar realmente livre e realizar uma vida plena, do jeito que ele quer ou que pensa.
Uma comparação como passado, em torno do século 5 a.C. Ocorreu uma transformação no mundo grego que costumamos chamar de 'morte das sociedades mítico-eróticas'. Tem início o período clássico e, logo a seguir, o chamado mundo helenístico. Vale a pena um breve esclarecimento sobre essa transformação que trará enormes consequências para o modo de pensar e viver das sociedades e civilizações que se desenvolveram a partir desse ponto.
Em primeiro lugar, merece uma explicação o 'mítico-erótico'. As assim chamadas sociedades tinham como característica principal uma visão de mundo no qual o mítico ocupava um papel central, e isso queriam dizer que não havia separação rígida entre o real e o imaginário. Além disso, o mundo era visto como um lugar mágico e religioso, no qual o divino se encontrava em toda parte.
Os mitos tinham como função explicar e justificar, de um ponto de vista divino, a razão de ser de tudo que existe no mundo e, mais ainda, consolidar uma função cósmica em tudo; portanto aos homens era vetado intervir indistintamente na natureza e na vida, uma vez que isso seria considerado um desrespeito aos deuses. A consequência prática dessa visão é que o divino, estando presente em tudo, exigia respeito por parte do homem para todas as formas de existência.
Os mitos representavam uma força religiosa fundamental, para impor limites aos desvarios do homem e para dar-lhe uma consciência ética de que a vida foi feita para ser glorificada e respeitada. Já que somos mortais e nos alimentamos da morte alheia, é nosso dever minimizá-la. E de nada adiantará ser vegetariano: mata-se do mesmo jeito para se viver.
Já a questão erótica refere-se ao modo de vida no qual a paixão pela vida ocupava um primeiro lugar, sendo este o significado original da palavra 'erótico, tratava-se se uma visão na qual vida e paixão era uma e a mesma coisa, real significado de paixão, ou seja, uma glorificação da vida.
A grande transformação que encontraremos a partir daí é que esses valores, e o modo de vida dessas civilizações (particularmente da Grécia antiga e do Egito), serão paulatinamente substituídos por uma 'paixão' desenfreada pela conquista de objetos e bens materiais, mesmo que isso custe vidas.
E o que tem a ver o Ócio Criador com toda essa transformação? Simplesmente as sociedades mítico-eróticas colocavam-no como uma das atividades fundamentais para a celebração da vida e sua consolidação. Claro que não estamos falando de um ócio com a conotação moderna de estar desocupado, ou mesmo de um lazer sem uma significação ou sentido especial. O Ócio Criador, praticado no período arcaico, tinha por finalidade ensinar os homens a imitar os deuses. Isso queria dizer que, se a característica fundamental dos deuses era a criação da vida, caberia aos homens imitá-los, encontrando meios (criações) para celebrá-la, consolidá-la e enriquecê-la. Vale notar, no entanto, que o ócio não estava voltado a qualquer criação, mas somente àquela que celebrasse a vida.
Como era de se prever, o Ócio Criador progressivamente desaparece, dando lugar àquilo que ficou conhecido no mundo romano como Negum Otio, que nada mais é do que a origem da palavra 'Negócio', e do modo de vida que ficou conhecido como 'Negociante'. Não se tratava mais de celebrar a vida, a natureza e a criação; havia nascido o homem que celebrava os negócios e dedicava toda a sua vida para eles. Em outras palavras, o objetivo não era mais viver com paixão e alegria, nascia o homem 'sério', que só se preocupava com negócios e conquistas materiais.
O fundamental para a formação dos jovens e para a prática do Ócio Criador era o aprimoramento da arte de ser verdadeiro, de ter a coragem de ser assim e assim revelar-se, procurando evoluir.
L.F. Alves, Fortaleza – Brasil, Janeiro de 2010.
Copyright 2007. All Rights Reserved. |
|
|
Consulte aqui o seu email: nome@fogo.cv
entrar
|